Silgueiros, um pouco da sua História

A freguesia de Silgueiros é uma das 25 que constituem e concelho de Viseu. Estende-se por uma área de 36,86 quilómetros quadrados, fica situada, entre os rios Asnos e Dão, a sul do concelho e confronta com os de Tondela (freguesias de Parada de Gonta, Sabugosa e Lajeosa do Dão), Carregal do Sal (Pardieiros) e Nelas (Moreira). No concelho de Viseu são-lhe limítrofes as de Fail, Vila Chã de Sá e S. João de Lourosa.

A história da freguesia tem raízes muito profundas. A criação da sua paróquia aconteceu em 1186, por acção de Daganel do Loureiro e D. Sancha Gonçalves, mas o seu povoamento é muito anterior, a avaliar pelo aparecimento de documentação arqueológica que o atesta. São exemplos o aparecimento, em 1973, de uma construção dolménica quando se procedia ao arroteamento de um terreno sito ao Cabecinho da Orca, próximo da actual Adega Cooperativa, assim como de rudes trituradores ou mós do neolítico a comprovarem também a produção cerealífera nessa época distante. Américo Costa, no seu Dicionário Corográfico refere que, em Passos, próximo da Pedra Baleira situada ao Canedo, foram encontrados vestígios de muralhas castrejas, o que ajuda a provar o povoamento de Silgueiros na época pré-romana. Em Falorca, nos anos noventa do século XX, foi encontrado um machado de pedra polida, que confirma esta ideia .O aparecimento de moedas do tempo dos Romanos em diversos lugares da freguesia, designadamente, nos limites de Passos, são outros testemunhos autênticos de como esta freguesia, bem como outros grandes espaços em volta da cidade de Viseu, estiveram sob o domínio deste povo.

A presença de velhinhas lagaretas, bem como de diversas sepulturas antropomórficas espalhadas por diversificados pontos de Silgueiros completam o conjunto de elementos comprovativos dessa ancianidade.

Por aqui passou a via romana que, partindo de Viseu e passando por Teivas, Rebordinho e Oliveira de Barreiros, atravessava Silgueiros e seguia por Sangemil a caminho de Tábua. Dentro da Povoação da Póvoa Dão ainda hoje são visíveis restos bem conservados desta via. A presença dos Romanos na região pode ainda ser comprovada pela existência, no castro dos três rios, de uma inscrição decifrada nos anos quarenta o século XX pelo saudoso Dr. José Coelho nos seguintes termos:

Tvreivs
Lucio Manlio, filho de Décio da tribu Emília, cumpriu com grande satisfação o merecido voto de Reinato

O que significa que o cidadão romano Lúcio Manlio, da Tribo Emilia, filho de Décio, cumpriu com grande satisfação o voto de Reinato muito justamente merecido, mandando lavrar aquela inscrição no rochedo daquele local – santuário em honra de Tvreivs.

O castelo situado próximo dos limites de Passos, mas já na freguesia de Vila Chã de Sá, velho castro lusitano mais tarde romanizado onde foram encontrados pedaços de cerâmica grosseira e algumas moedas romanas, é outra marca da idade do povoamento destas terras.

Séculos volvidos, no período da reconquista Cristã, quando as ferozes lutas para a expulsão dos sarracenos estavam no auge, parece ser certo terem os Silgueirenses tomado parte nelas, pois há notícias de que em Passos, do século IX para o século X, viveu um presor dessa reconquista de nome Sigildo.

Chama-se necrópole ao lugar onde certos povos da antiguidade sepultavam os seus mortos. Variava de acordo com o local e o processo dos enterramentos, podendo ser subterrânea ou de superfície, cavada na terra ou escavada na rocha, com ou sem monumento de arquitectura.

Na freguesia de Silgueiros ainda hoje podemos encontrar algumas marcas desse tempo, um tempo ainda não rigorosamente definido pelos especialistas. Trata-se de sepulturas escavadas na rocha, não constituindo propriamente necrópoles, mas peças na maioria dos casos isoladas.

Os especialistas nesta área da História não estão completamente de acordo quanto à sua origem e, consequentemente, quanto à sua idade, uma vez que estas sepulturas foram sempre encontradas vazias, faltando, por isso, material que permitisse o seu estudo e a sua datação. Dizem alguns historiadores que as suas origens estão no período pré-histórico, outros no tempo dos lusitanos, outros no período romano-cristão e outros ainda nos tempos medievais. O Dr. José Coelho, ilustre historiador viseense, na sua obra Notas Arqueológicas defende a sua convicção de que tais sepulturas não são pré-romanas nem romanas, mas sim medievais. Esta é também a opinião de V. Correia, citada pelo autor viseense, que as refere como posteriores ao século X, por junto de algumas delas aparecer uma cavidade não adequadamente explicada, mas que poderia ser o local onde se implantara uma estela funerária ornamental, o que ajudaria a confirmar esta opinião.

O povo conhece-as bem, sobre elas emite opiniões e protege-as com o carinho que se dedica às coisas que não se explicam, mas se respeitam. Chamava-lhes as campas dos moiros, já que os moiros têm as costas largas para justificar muito daquilo que o povo simples desconhece e tem raízes profundas no tempo; são as campas ou sepulturas dos moiros, os penedos da moira, as covas da moira, quase sempre aliados a lendas mais ou menos poéticas e imaginativas, onde as mouras encantadas e os tesouros se escondem à espera de quem os descubra e quebre o encantamento.

Registamos a lenda de um penedo situado no limite de Passos, da freguesia de Silgueiros, onde alguém descobriu uma inscrição que dizia:

  • Quem me virar de pernas para o ar, grande tesouro há de encontrar.

Decifrada a inscrição, logo se juntou gente em número e em força bastante para remover aquele peso descomunal, depois do que, com natural desapontamento, encontraram uma nova inscrição:

  • Ainda bem que me viram pois, deste lado, já estava muito magoado.

Na freguesia de Silgueiros estas sepulturas, antropomórficas, escavadas no duro granito beirão, assim como as inúmeras lagaretas por aí espalhadas, têm resistido às intempéries e ao abandono daqueles que têm responsabilidades no domínio do património nacional. Na sua maioria encontram-se em bom estado, embora merecessem cuidados habituais de limpeza e conservação. É que o património, designadamente, o de propriedade colectiva merece e exige cuidados que permitam a sua fruição por todas as gerações que nos sucederem.

A freguesia de Silgueiros é hoje constituída por 16, 17 ou mais povoações, dependendo da forma como encaramos as denominações que vão aparecendo em função do povoamento e construção habitacional em crescimento e que tem dado origem a novos e já significativos aglomerados.

Quem quiser falar de Silgueiros e da sua história terá de vasculhar documentação poeirenta espalhada por arquivos e bibliotecas, terá de estudar nas 16 ou 17 povoações que a constituem as marcas da acção desenvolvida pelos seus habitantes durante séculos e séculos de duro labor, mas terá ainda de, obrigatoriamente, estudar e conhecer bem a história de uma família ilustre, entre muitas e muitas ilustres famílias que por aqui passaram, aqui viveram, aqui deixaram os seus testemunhos – a família do solar do Loureiro, a mais antiga, cujos ascendentes se conhecem e, certamente, a que mais marcou a freguesia de Silgueiros, projectando o seu nome para além dos muros locais ou mesmo regionais, marcando um lugar de relevo no todo nacional. A esta família se deve a formação da paróquia de Silgueiros e seu patrono, há mais de 830 anos; a esta família, designadamente ao seu mais ilustre membro, Luís de Loureiro, ficou a Coroa Portuguesa, ao tempo do rei D. João III, devendo serviços inestimáveis relatados pelo próprio rei por ocasião da concessão que lhe fez do seu brasão de armas.

Silgueiros tem também o seu nome ligado ao 1.º Duque de Viseu, Henrique, o Navegador, irmão do rei viseense, D. Duarte, o Eloquente, elemento da ínclita geração, altos infantes. Aqui, mais concretamente em Silvares, teve uma quinta de significativas dimensões, com casas próprias e incluindo vinte e três casais ao redor que pertenciam à dita quinta e com todas as outras suas pertenças. Não terá tido, por certo, o Infante D. Henrique muito tempo disponível para se demorar por Viseu e seu termo. Todavia, sabe-se da sua paragem pela nossa cidade, já com o pensamento tomado pela projectada conquista de Ceuta, a primeira das muitas conquistas que os portugueses fizeram no norte de África. São conhecidas e ficaram famosas, pela novidade e também pela imponência de que se revestiram, as festas que levou a efeito na cidade de Viseu, iniciadas pelo Natal de 1414 e terminadas no dia de Reis no ano seguinte. Aos seus muitos e ilustres convidados serviu vinho de Silgueiros, já tão conhecido e apreciado, o qual também esteve presente em festas e banquetes reais e da grande nobreza realizados em outras cidades onde a corte permanecia.

A organização administrativa medieval dividiu as terras de Silgueiros por dois dos pequenos concelhos de então. O de Ranhados e o do Barreiro, este com sede em Vildemoinhos e de que eram donatários os senhores de Santar a quem, anualmente, desde Nossa Senhora de Agosto até ao Natal eram devidos os foros seguintes pagos pelos respectivos moradores:

Silvares - 12 alqueires de trigo,
48 alqueires de pão meado (centeio e milho miúdo);
13 almudes de vinho.

Lages - 12 alqueires de pão meado.

Porrinheiro - 28 alqueires de pão meado.

Loureiro - 6 alqueires de pão meado.

Passos – 12 alqueires de pão meado.

A implantação do liberalismo em Portugal, com as suas grandes reformas, trouxe para Silgueiros, como para todo o País, grandes alterações nos domínios económico, social e jurídico: aboliu o pagamento dos dízimos e direitos senhoriais para alívio da propriedade rural, do trabalho agrícola, da pequena indústria e do pequeno comércio, baixando em cerca de dois terços os impostos que os oneravam; proibiu a transmissibilidade dos empregos, por herança; extinguiu os morgados; separou as funções judiciais das administrativas, acabando com os pequenos tiranos provinciais que eram os capitães-mores. Assim se lançaram as bases de uma prosperidade que havia de, alguns anos depois, levar ao grande aumento da produção agrícola e ao desenvolvimento das pequenas indústrias. O ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar, liberal convicto que se bateu ao lado de D. Pedro, exilado em Inglaterra, elemento do grupo que depois de se organizar na ilha Terceira, nos Açores veio a desembarcar em Arnosa do Pampelido, acção mais conhecida por desembarque do Mindelo, é o responsável por outras medidas de grande impacto, impensáveis nos tempos do Portugal antigo, os tempos do absolutismo, de entre as quais se destaca, por decreto de 30 de Maio de 1834, a extinção das ordens religiosas masculinas, o que lhe granjeou o título de Mata-Frades. Quanto às femininas, deixavam-se ao abrigo do Decreto de 5 de Agosto do ano anterior que expulsava os noviços de ambos os sexos e proibia a admissão de outros. Ficaram apenas nos conventos as últimas freiras até à sua morte. Assim aconteceu no convento de Jesus da cidade de Viseu que a pouco e pouco se extinguiu, passando os seus bens para o estado, como acontecera com os masculinos.

A título de curiosidade, diremos que um dos últimos trabalhos manuais realizados pelas freiras do Convento de Jesus, um bonito registo todo ele feito com uma inteira meada de linho finíssimo, faz parte do acervo do Museu de Silgueiros, situado aqui ao lado na povoação de Passos.

As grandes reformas na administração local que incluíam a reorganização dos municípios operam-se a 25 de Abril de 1835. São extintos muitos dos pequenos concelhos medievais, criando-se em sua substituição outros de dimensões e viabilidade mais adequadas ao tempo e ao progresso local. A 18 de Julho do mesmo ano, são criadas as juntas de paróquia em substituição de muitos desses pequenos concelhos, e alargando-se os demais, visando alguma descentralização e o empenhamento das populações na solução dos seus próprios problemas.

A primeira Junta de Paróquia da Freguesia de silgueiros de que foi presidente o padre Francisco Fernandes de Sá, reuniu-se pela primeira vez a 17 de Outubro de 1836, mais de um ano após a publicação da legislação que a criou.

Hoje, a freguesia de Silgueiros, podemos afirmá-lo com segurança, é um espaço privilegiado, considerando a sua situação geográfica, as condições de vida tranquila dos seus habitantes, e as estruturas sociais e culturais nela existentes.

A sua paisagem, para além da negrura deixada por inúmeros incêndios, pode considerar-se digna de especial apreciação, com alternantes cores dos seus espaços abundantemente agricultados a mostrarem a belezas e diferenças, com presença humana muito significativa a marcar carácter em época de desertificação e de expressões globalizantes, respirando desafogo económico e social.

Dispondo de bons acessos rodoviários, usufrui das mais elementares exigências básicas: electricidade, água e saneamento. São também estruturas básicas de que dispõe as escolas do primeiro ciclo nas principais povoações e uma escola de segundo e terceiro ciclos, ponto de passagem dos jovens silgueirenses para estudos mais avançados ali a dois passos de cidade de Viseu.

Socialmente, as populações têm a seu serviço duas instituições particulares de solidariedade social, capazes de responder às actuais necessidades a partir das suas diversificadas valências.

Culturalmente, são relevantes o Centro de Documentação Etnográfica de Passos constituído pelo Museu etnográfico e pela Biblioteca da mesma especialidade, assim como as diversas associações que, para além dos seus fins específicos, congregam jovens de todas as idades, dinamizam quereres e actividades, ocupam interessantemente tempos livres, propõem e realização de actividades criadoras de crescimento pessoal, social e cultural. Em duas salas de festas se levam a efeito espectáculos de teatro, de música tradicional, popular e erudita, de polifonia coral, de etnografia regional e nacional.

Em Silgueiros há, como foi dito, duas associações de solidariedade social, uma das quais com importante vertente cultural, e mais nove recreativas e culturais, sem esquecer uma de defesa do património e outra vocacionada para a defesa da floresta.

Da sua acção resultam, para além do mais, dois grupos etnográficos de representação nacional, quatro grupos de cantares populares ou tradicionais, uma escola de música, um grupo de teatro com provas dadas dentro e fora da nossa freguesia, um conjunto musical, dois grupos de zés-pereiras, um grupo desportivo virado para a prática do futebol.

Economicamente, Silgueiros ocupa, segundo nossa opinião, um lugar de relevo no contexto concelhio. O comércio de volume significativo e as indústrias da construção civil, da restauração, de serralharia e outras constituem boas fontes de bem-estar.

A pecuária e a agricultura são cada vez mais importantes entre nós, destacando-se a criação aviária, a produção intensiva de hortícolas e, de forma cada vez mais significativa, pela quantidade, mas sobretudo pela qualidade, a produção vinícola.

Em Silgueiros, desde tempos muito recuados, se cultivou a vinha e se produziu o vinho. As lagaretas espalhadas pela freguesia bem o atestam, a quinta do Infante em Silvares o confirma e as grandes casas agrícolas de um passado recente foram o garante de um trabalho que também ele ajudou a projectar o nome de Silgueiros.

Podemos dizer que Silgueiros é sinónimo de vinho, vinho de alta qualidade, sendo os seus nomes conhecidos em todo o nosso país.

Foi a Adega Cooperativa de Silgueiros, criada em 31 de Julho de 1957, registada na Conservatória do Registo Comercial de Viseu em 17 de Fevereiro de 1959, como consta do D. G. – III série - n.º 56, de 7 de Março do mesmo ano, quem, de maneira formal e rigorosa, procurou, pela primeira vez, chamar a atenção dos vitivinicultores para a necessidade do cumprimento de práticas adequados e de esforços conjugado para fazer face à concorrência de outras regiões. A sua acção ao serviço desta causa durante mais de 50 anos e os positivos resultados obtidos garantem-lhe um lugar de relevo entre nós pelo que conseguiu nos domínios económico e da cooperação no contexto regional.

Iniciou a sua laboração no já longínquo ano de 1964, com 129 associados, tendo produzido então 784 269 litro de vinho tinto, com a graduação média de 11,85º, 57 326 litros de água-pé (6,45º) e 10 541 de aguardente bagaceira, com a graduação de 55º. Mas em 2004, por exemplo, com vinhos diversificados, muitos engarrafados, com 2 042 associados, veio a produzir o total de 2 740 351 litros.

Com o século XX a terminar, com mil mudanças anunciadas ou já em movimento num mundo cada vez mais global e competitivo, era chegada a hora de, também na área da produção vinícola e na nossa freguesia se pensar em trabalho diferente, face a um mundo em que cada vez mais as exigências de carácter científico se impõem ao empirismo tradicional.

Assim, em Silgueiros, nasceram as quintas que, aproveitando as condições naturais e ímpares desta terra, procuram apresentar — e já apresentaram — um produto capaz de rivalizar com os melhores do mundo, capaz de propiciar a satisfação espiritual de quem obtém os resultados a que se propôs e que, simultaneamente, vê a justa compensação para o trabalho realizado e investimentos feitos.

Apesar do receio de cometer a injustiça de esquecer alguém, refiro o nome destas Quintas ou Casas, incluindo aquelas que, não pertencendo à nossa freguesia, fazem parte da chamada Sub-região Vitivinícola de Silgueiros. No seu conjunto, formam um bloco em que, honrando-se a si mesmas, constituem motivo de orgulho para todos quantos amam a sua terra e se batem pelo seu progresso nos mais diversos domínios:

  • Casa dos Gaios;
  • Pedra Cancela;
  • Quinta dos Penassais;
  • Quinta de Reis;
  • Quinta da Turquide;
  • Quinta do Verigo;
  • Vinha Paz.

E sediadas em Silgueiros:

—  CM Wines:

—  Quinta da Falorca;

—  Quinta de Lemos;

  • Quinta da Penseira;
  • Quinta do Perdigão;
  • Quinta do Vale das Escadinhas.

Com a sua vida e o seu sucesso, Silgueiros será mais forte, mais rica e mais conhecida por muitas e boas razões. Com longa e honrosa história, tem garantido auspicioso futuro.

António Lopes Pires

 Ver Livro "Silgueiros"

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