“Se o folclore, no justo dizer de Lafargue, “é a expressão fiel, simples, espontânea da alma do povo, a confidente das suas alegrias e das suas dores”, o cancioneiro mostra-se, entre as várias manifestações que se agrupam sob aquela designação, como a imagem mais viva dessas confidências e de todas as contradições que a vida oferece, uma vez que usa um material de linguagem facilmente interpretável, bem diferente da música ou da dança, por exemplo, que são campo acessível a mistificações interpretativas de toda a espécie.

Nesta simplicidade e, principalmente, porque mais variados são os matizes ao seu alcance, os cancioneiros permitem o aprofundar dos diferentes problemas que servem para uma justa compreensão das multidões ignoradas, tornando-se, como já apontei, um testemunho com voz própria, cuja presença será imprescindível para que se pautem afirmações em relação a cada povo.

Deste modo se sentirá como tarefa de um alcance altamente nacional, a imediata e urgente recolha de todos os cancioneiros, não só nas suas expressões de lirismo, como também naquelas outras de diferente qualidade poética, mas que condensam, de igual modo, atitudes, observações e experiências do quotidiano.”

 

Alves Redol,

 Cancioneiro do Ribatejo,

 Lisboa, 1950, pág. 19/20

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