Devido à crença de que tudo o que o rodeava estava possuído por espíritos, maldades, fenómenos incompreensíveis, o Homem, bem cedo “… sentiu a necessidade da proteção de variados deuses ou de um ente supremo que o livrasse dos perigos e das ameaças a que se julgava sujeito.”[1]

A crença de que pelo olhar se pode fazer mal a pessoas, colheitas e animais perde-se na lonjura dos tempos e é comum a várias cultural ocidentais – tendo sido assimilada por cristãos, árabes e judeus.  O assunto foi de tal modo importante que motivou vários tratados ao longo da História. Um dos primeiros tratados intitulado Tratado do Fascínio surge no séc. XV e é atribuído a D. Henrique de Vilhena, uma das figuras mais destacadas da cultura hispânica de então. Do lado de cá da fronteira o assunto também ocupou os médicos do século XVI. Exemplo disso é o tratado Questão sobre o Mau Olhado atribuído a Gaspar Ribeiro e Reflexões sobre o Mau Olhado de Tomás Rodrigues da Veiga. Tanto um como os outros tentaram desmistificar esta questão deixando de lado explicações sobrenaturais e buscando a causa desta “doença” no mundo terreno.

Debalde.

O povo, alheio a todos estes tratados, acreditava que havia pessoas com o dom de “deitar o Cobranto” (corruptela de quebranto), o “mau olhado”, o olho mau, o olho grande… aos seus semelhantes. Os alvos preferenciais eram as crianças e os idosos, ou seja, os seres mais frágeis. No entanto, também os seres mais fortes – homens e mulheres sadios – podiam ser acometidos deste mal. Os motivos eram vários mas a inveja e o ciúme predominavam sobre todos os outros. E bastava um olhar! As vitimas de “mau olhado”, regra geral, tinham comportamentos estranhos que iam da tristeza, às fortes dores de cabeça, instintos suicidas, cismas, enfraquecimento, tremores, desfalecimentos, apatia, cansaço, falta de apetite, entre outros. A maior parte das vezes, estes sintomas surgiam repentinamente e sem qualquer causa aparente.

De acordo com alguns etnólogos, existiam três elementos considerados capazes de neutralizar o mau-olhado: a natureza através de plantas com poderes mágicos (arruda, folhas de incenso, alecrim,…), a religiosidade através das rezas e orações e a magia ou simpatias através de amuletos e talismãs (ferradura, figa, signo saimão, …)

O povo temia e, segundo relatos recentes, ainda teme esta ameaça do mau olhado. Assim como respeita, receando, as pessoas que o rezam; é que “quem o sabe rezar também o sabe deitar” diz o povo na sua mais ingénua sabedoria. Sendo assim, também para o mau olhado ou cobranto havia remédio eficaz nas rezas populares. Geralmente estas rezas eram repetidas três vezes pois, segundo Francisco Chagas Júnior, “…o uso constante do número três revela um tipo de associação mágica, já que no imaginário católico popular, a repetição em número de três se encontra…vinculada à neutralização de maldições, por evocar os poderes da Santíssima Trindade…”[2]

Vejamos alguns exemplos:

 

“Deus mo deu,

Deus mo há-de tirar

Deus desolhe

Para quem para mim mal olhar” [3]

Aprendida em criança do velho tosquiador de ovelhas, natural de Pindelo de Silgueiros, a autora destas linhas, dá-vos conta de uma outra reza para o “mau olhado”. Diz assim:

“Alho-porro, com conica e tudo,

Tosca mosca, não me tolhas.

Ferradura nos pés,

Ferraduras nas mãos,

Tu és ferro

Mas eu sou aço,

Arreda mula que te embaço.”

O Senhor Alexandre Abelhão – era este o nome do tosquiador –  dizia nunca sair de casa sem recitar esta reza protetora pois cria que ela o protegia de todo o mal. Dizia ter uma saúde de ferro e nunca ter sido atacado por mal algum. As bruxas, como chamava às “mulheres duvidosas”, nunca conseguiram entrar com ele porque a sua reza o mantinha sempre protegido.

Em Oliveira de Barreiros, aldeia limítrofe da vasta freguesia de Silgueiros, vive a Sr.ª Emília[4] que, a medo, nos informou saber rezar ao Mau Olhado mas que teme este assunto dada a carga negativa que encerra. Contou-nos que quando reza ao Mau Olhado fica toda arrepiada, chega a ter perdas de memória e sensações esquisitas no corpo, não sabendo se há-de atribuir essas sensações ao medo e respeito que tem por este assunto ou se é das “cargas negativas” que está a tentar tirar às pessoas.

Dela recolhemos as seguintes rezas que, segundo nos informou, aprendeu de sua mãe:

“Casa varrida

saco molhado

onde Nosso Senhor Jesus Cristo

esteve deitado.

Deus te fez

E Deus te criou

E é as pessoas da Santíssima Trindade

Pai, Filho e Espírito Santo.”

Três vezes.

Outra;

“F... Deus enfeitice quem te enfeitiçou,

Deus embrulhe quem te embrulhou,

Deus embruxe quem te embruxou,

Deus amarre quem te quer amarrar,

e Deus enleie quem te quer enlear.

O sol nasce na serra

E põe-se no mar

Todo o mal que me quiseres botar

Ao mar vá parar.”

Três vezes.

Da mesma localidade é a senhora Maria Avelina da qual recolhemos a seguinte reza, que no seu dizer é muito certa e eficaz:

“Casa de bom homem

Casa de má mulher

Casa varrida, saco molhado

Onde Jesus Cristo foi deitado

Fulano  tens cobranto ou olhado

Pelo teu corpo espalhado

Dois to botaram

Três to hão-de tirar

Nas pessoas da Santíssima Trindade

Pai, Filho e Espírito Santo.

Credo, Credo, Credo.”[5]

No final rezam-se 9 Pai Nossos, 9 Ave Maria e

1 Credo em Deus Pai

Como já foi dito noutro lugar, mesmo numa sociedade culturalmente esclarecida e em pleno século XXI, a fé, a superstição e tantos outros sentimentos ancestrais continuam vivos e presentes na alma e nos hábitos do dia-a-dia das populações.

No caso concreto do mau olhado assistimos ainda hoje à sua permanência bem enraizada no quotidiano das comunidades quer rurais quer urbanas; porque, fruto de hábitos adquiridos ao longo de anos e alheio à passagem do tempo, o Homem de hoje continua a usar a religiosidade, os amuletos e esconjuros como forma de se proteger do mal que não conhece mas pressente ao seu redor. Basta que algo altere o seu equilíbrio natural!

Maria Odete Madeira

Passos de Silgueiros, Maio de 2011

 

Bibliografia:

Júnior, Francisco Chagas, O Olho do Mal, Revista Espaço Académico, n.º 113, Outubro de 2010

Quadrado, José Gomes, Pragas, Maldições e Outras Costumeiras Devocionais, In, revista Côa e Ciência, n.º10

Quinet, António, Um Olhar a Mais…, Rio de Janeiro, Zahar, 2002

[1] Quadrado, José Gomes, Pragas, Maldições e Outras Costumeiras Devocionais, In, revista Côa e Ciência, n.º10

[2] Júnior, Francisco Chagas, O Olho do Mal, Revista Espaço Académico, n.º 113, Outubro de 2010, pág. 105

[3] Recolhida por Maria Odete Madeira em Passos de Silgueiros

[4] Nome incompleto a pedido da própria informante que tem, neste momento, 79 anos de idade e é utente do Centro de Dia da ASSOPS – Associação de Passos de Silgueiros. Recolha efetuada em 29 de Abril de 2011.

[5] A Senhora Maria Avelina tem 75 anos de idade e é utente do Centro de Dia da ASSOPS – Associação de Passos de Silgueiros. Recolha efetuada em 29 de Abril de 2011.

 

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