“É quando as horas amargas me pesam, que relembro consoladoramente a doce harmonia de quanto me rodeava, nas suas faces mais ténues e imprecisas; o dia melancólico de outubro em que primeiro transpus os degraus da escola da minha aldeia; os óculos escuros do bom velho que me ensinou a ler; as escapadas, no verão, para irmos às escondidas mergulhar de sociedade na corrente fresca do rio; os repetidos assaltos a algum farto pomar da vizinhança; os escrúpulos terroristas duma consciência lavada em vésperas de primeira comunhão, e logo o dia festivo em que recebi Nosso Pai; o eixo jogado aos domingos de tarde pelas estradas poeirentas; o repicar alegre dos sinos, o estralejar ruidoso dos foguetes em dias de turbulento arraial; a caça aos ninhos e às amoras nos silvedos das quintas, e o regresso a casa, à tardinha, de mãos e faces besuntadas de roxo, como silenos minúsculos à procura do pascigo noturno, depois duma orgia formidável de ar e luz, de flores e frutos. Cada recordação—cada saudade.

E a adorável intimidade dos serões de inverno, ao conchego do lar, ouvindo o crepitar alegre duma fogueira de toros, na espectativa duma boa ceia e duma cama bem fofa? A um canto, a avozinha, de chambre lavado e rescendente de alfazema, essa doce velhinha que sabia tão bem fazer girar a dobadoira entre as mãos brancas e esfuziadas, como a língua incansável a embalar-me a imaginação de criança com as incríveis histórias de moiras incarnadas e maravilhas de tesouros escondidos. Há lá coisa, pela vida fora, que valha esta paz, este amor, esta suprema comunhão das coisas no mesmo sentimento?”

 

  1. Cardoso Martha e Augusto Pinto,

Folclore do Concelho da Figueira da Foz,

 Esposende, 1910, pág. 12.

 

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