“O caldo verde faz-se em cinco minutos, e é ele, repleto de migas de broa. que constitui a principal refeição de cada dia. De vez em quando passa na povoação um sardinheiro, e então a sardinha assada, rechinando sobre uma côdea de pão, rivaliza com o mais delicioso manjar. As azeitonas, se as há, e a cebola crua polvilhada de sal, são para as crianças uma guloseima invejada.

O traje da minhota é, durante o trabalho da semana, áspero, grosseiro e enxovalhado. Acumula-se sobre ele o pó do campo, o pó da eira, o pó da estrada. E este desasseio não repugna ao homem, que se encontra exactamente nas mesmas condições de vestuário.

Mas ao domingo, para ir á missa, ou para ir à romaria, a minhota, casada ou solteira, veste as suas roupas claras e garridas, que alegram os olhos, e são como que um reflexo da policromia pitoresca e variegada da natureza.

Da Maia para cima, a escala cromática da cor vai subindo na indumentária regional. E no distrito de Viana, especialmente nos arredores da cidade que

lhe dá o nome, atinge a mais luciolante ardência de tons e matizes.

E' essa, justamente, a zona de maior beleza em toda a província do Minho. A paisagem, até aí linda mas estreita, desenruga-se, espraia-se, acetina-se na safira da água macia e na verdura da planície brunida.

São os campos férteis e doces do Lima, ricos e vastos, cheios de idílio e de luz : é o berço das éclogas pastoris, a pátria de Bernardes.

A cor exuberante e viva difunde-se rolando em ondas caudais pela campina fora, tinge intensamente a terra e a água, a relva e a flor, a seara e a árvore e esbarrando nas povoações galga-as de um jacto para inundá-las até poder vestir a encosta dos montes e o corpo das mulheres, entornando em cima de uns e outras a paleta de Rubens, como se o arco-íris tivesse caído sobre a terra pulverizado em granulações de pedras preciosas.

As saias e os aventais das raparigas saem do tear sulcados de veios cambiantes, paralelos como as linhas de uma pauta caligráfica.

As barras, que são o ornato inferior das saias, o debrum dos aventais, o padrão dos lenços e o tecido dos justilhos clamam tons estridentes.

Mas n'esta pirotecnia louca de tintas e de traços uma cor audaz estoira como girândola de rubis, estilhaçando brasas candentes, incendiárias : é o vermelho ígneo, o rubro das fornalhas em actividade e das crateras em ebulição.”

 

Alberto Pimentel,

 As Alegres Canções do Norte,

 Lisboa, 1905, pág. 18.

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